Adauto Faria Jr • 14 de setembro de 2026

Mudanças Geracionais e Saúde Mental: novas formas de angústia na prática clínica


Na prática da psiquiatria e da psicoterapia psicodinâmica, é possível perceber que o perfil dos pacientes e as formas de sofrimento também acompanham as transformações da sociedade.

Não se trata de dizer que uma geração é melhor ou pior que outra. Mudam a família, a escola, o trabalho, os relacionamentos, os valores culturais e, com eles, a maneira como cada pessoa constrói sua identidade e enfrenta seus conflitos.

Ao observar, de forma aproximada, as gerações X, Y e Z, encontramos diferenças não apenas nos sintomas, mas também na maneira como cada indivíduo se relaciona consigo mesmo, com os outros e com o mundo.

De um mundo mais estruturado para um mundo mais fluido

Gerações que cresceram em ambientes mais estruturados encontravam referências mais definidas sobre o que se esperava de uma pessoa. Família, escola, religião, profissão e outras instituições ofereciam modelos claros de comportamento e um roteiro de vida relativamente previsível.

Essa estrutura podia oferecer organização e continência, mas também podia ser excessivamente rígida. O indivíduo aprendia a corresponder às expectativas e, muitas vezes, seus desejos precisavam se submeter a essas regras.

O sofrimento podia aparecer na forma de culpa, repressão, necessidade de aprovação e dificuldade de reconhecer os próprios desejos. Na perspectiva psicodinâmica, encontramos nesses casos conflitos relacionados a modelos internos rígidos, que cobravam e limitavam a expressão mais autêntica do indivíduo.

As gerações mais jovens cresceram em um cenário diferente. A sociedade tornou-se mais plural, os modelos familiares e afetivos se diversificaram e a tecnologia ampliou enormemente o acesso à informação e às possibilidades de escolha.

Há ganhos importantes nessa transformação. Muitos jovens podem questionar padrões antes impostos e construir sua identidade com maior liberdade.

Mas uma liberdade maior também pode trazer uma dificuldade diferente.

Quando existem muitas possibilidades, nem sempre existe uma referência interna suficientemente organizada para escolher entre elas. O problema pode deixar de ser apenas “não posso ser quem sou” e se transformar em:

“Não sei exatamente quem sou, o que quero ou para onde estou indo.”

Em parte dos pacientes mais jovens, observo justamente essa dificuldade: sustentar escolhas, tolerar frustrações, lidar com limites e manter projetos quando eles deixam de produzir satisfação imediata.

Não significa que uma geração seja menos resiliente. Significa que está sendo formada em um mundo que exige outras formas de organização psíquica.

O ambiente também mudou

A tecnologia intensifica esse cenário. O indivíduo pode acompanhar continuamente outras vidas, carreiras, corpos, relacionamentos e realizações. Temos acesso a uma quantidade enorme de informação, mas isso não significa necessariamente ter mais orientação.

A Organização Mundial da Saúde reconhece ansiedade e depressão entre os principais problemas de saúde mental na adolescência e aponta aumento do uso problemático de redes sociais entre adolescentes, de 7% em 2018 para 11% em 2022.

Isso não significa que a internet seja, por si só, a causa dos transtornos mentais. O ambiente externo encontra um mundo interno, e cada pessoa responde a esse encontro de maneira diferente.

O sofrimento psíquico pode estar relacionado à estrutura e à história do indivíduo, às circunstâncias concretas da vida ou às grandes transições e escolhas que fazem parte da existência. Muitas vezes, essas dimensões se combinam.

Essas experiências podem aparecer em qualquer geração. O que muda é o contexto em que cada indivíduo se desenvolve e a forma como esse contexto participa da organização de seu mundo interno.

Psiquiatria e psicoterapia

Por isso, tanto a avaliação psiquiátrica quanto a psicoterapia precisam considerar o sintoma dentro da dinâmica singular de cada paciente.

Na psiquiatria, essa compreensão orienta a avaliação diagnóstica e a escolha do tratamento, incluindo, quando indicado, o uso de medicamentos. Na psicoterapia psicodinâmica, permite compreender conflitos, padrões relacionais, expectativas internalizadas e formas de funcionamento que participam do sofrimento.

Essa integração também dialoga com a compreensão contemporânea da interação entre constituição biológica, história de vida e ambiente. A pesquisa em epigenética vem ampliando o conhecimento sobre como experiências e condições ambientais podem influenciar a expressão gênica e participar da relação entre vulnerabilidade biológica e desenvolvimento dos transtornos mentais.

O tratamento, portanto, não é definido apenas pela geração à qual o paciente pertence. É construído a partir da relação entre sua constituição, sua história, seu funcionamento psíquico e as condições atuais de sua vida.

É nessa perspectiva que compreendo a psiquiatria e a psicoterapia: avaliar o sofrimento em sua dimensão singular e oferecer o tratamento mais adequado a cada pessoa, integrando, quando necessário, recursos psicoterápicos e farmacológicos.

Dr. Adauto Faria Jr.
CRM 90890 – Psiquiatra e Psicoterapeuta

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