Adauto Faria Jr • 2 de setembro de 2026

A Imagem de Si: Identidade, Corpo e Performance no Mundo das Redes Sociais

Na prática da psiquiatria e da psicoterapia psicodinâmica, muitos sofrimentos não podem ser compreendidos apenas pelo que acontece no presente.

Cada pessoa possui um mundo interno construído ao longo da vida, formado por experiências, relações, valores, expectativas e conflitos. Essa estrutura influencia a maneira como percebemos a nós mesmos, aos outros e ao mundo.

Ao mesmo tempo, vivemos submetidos a solicitações externas: sucesso, aparência, juventude, desempenho, reconhecimento e felicidade. Quando essas exigências encontram vulnerabilidades já existentes, podem surgir angústias que nem sempre conseguimos compreender.

É nesse encontro entre o mundo interno e o mundo das redes sociais que algumas formas contemporâneas de sofrimento podem ser compreendidas.


Ser e parecer

As redes sociais e seus algoritmos não apenas mostram modelos de sucesso, beleza e felicidade. Elas também favorecem a exposição, a comparação e a construção de uma determinada imagem de nós mesmos.

Essas exigências externas podem encontrar expectativas que já existem dentro de nós. Experiências de reconhecimento, desqualificação e modelos de figuras importantes da nossa história podem continuar atuando internamente, cobrando e julgando aquilo que somos.

A pessoa pode então sentir que precisa parecer bem-sucedida, segura, bonita, jovem, produtiva ou feliz, mesmo quando sua experiência interna é muito diferente.

É nessa distância entre quem se é e quem se acredita precisar ser que a angústia pode crescer.

Pode surgir a sensação de nunca ser suficientemente bom, a chamada síndrome do impostor, a necessidade constante de aprovação, a comparação com outras pessoas ou uma insatisfação persistente com o próprio corpo.


Quando a imagem ocupa o lugar de quem somos

Algumas pessoas passam a verificar constantemente mensagens, curtidas e notificações, com dificuldade de se desconectar. Outras vivem uma sensação persistente de inadequação, apesar de conquistas objetivas.

Na adolescência, esse processo pode ser ainda mais delicado. Em uma fase em que a identidade está em construção, a comparação e o olhar dos outros podem interferir profundamente na percepção do próprio corpo, valor e pertencimento.

Ansiedade, depressão, alterações da imagem corporal, transtornos alimentares, manifestações somáticas e outras formas de sofrimento podem aparecer nesse contexto.

Mas a pergunta clínica não é apenas quanto tempo alguém passa nas redes sociais.

É compreender o que essa experiência representa para aquela pessoa.


Entre ser e parecer

A mesma cultura pode produzir efeitos muito diferentes em pessoas diferentes. Uma imagem pode ser apenas uma referência para alguém e, para outra pessoa, confirmar uma sensação antiga de inadequação.

Por isso, não basta compreender as redes sociais. É necessário compreender quem é o indivíduo que está diante delas.

Que expectativas foram internalizadas? O que significa, para ele, ser admirado? O que significa fracassar? Que tipo de pessoa acredita que precisa ser para sentir que tem valor?

Na psicoterapia psicodinâmica, essas questões permitem compreender os significados que estão por trás dos sintomas, das escolhas e das exigências que o indivíduo estabelece consigo mesmo.

Porque, muitas vezes, a pergunta mais importante não é:

“Como posso parecer melhor?”

Mas:

“Por que preciso tanto parecer aquilo que acredito que deveria ser?”

É nessa diferença entre ser e parecer, entre a experiência interna e a imagem apresentada ao mundo, que muitas formas contemporâneas de sofrimento podem começar a ser compreendidas.



Dr. Adauto Faria Jr.
CRM 90890 – Psiquiatra e Psicoterapeuta

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